
Trabalho Apresentado na XII Jornada de Psicologia de Umuarama em 2008
A TRANSDISCIPLINA E A CLINICA DOS TRANSTORNOS NO DESENVOLVIMENTO
INFANTIL EM CRIANÇAS DE ZERO Á DOZE ANOS
Maribel de Salles de Melo [1]
Vera Lucia Dolenz [2]
O objetivo deste trabalho é o de apresentar, do ponto de vista psicanalítico, a noção de desenvolvimento, a problemática que envolve o tratamento das crianças com TGD, a multiplicidade conceitual que envolve estes quadros e relatar a experiência da prática interdisciplinar, apoiado transdisciplinariedade, no Espaço Escuta de Londrina. Seria supérfluo dizer da importância do conhecimento profundo, sobre o desenvolvimento infantil, nos seus aspectos mais abrangentes, para que se possa conhecer, aquilo que é da natureza humana, em nada natural, para tratar dos Transtornos do Desenvolvimento.
Para Lacan (1949) sem o equipamento instintivo, que ao longo do desenvolvimento da espécie humana reduziu-se a ritmos biológicos, e prematuros no nascimento, o homem está completamente submetido ao Outro. Esta prematuração, diz Lacan, gera uma discórdia intraorgânica relacional do ser consigo mesmo e com o meio, que nenhum cuidado materno poderá preencher ou eliminar o desamparo inicial. Desamparo, que para Freud, (1985) refere-se à incapacidade objetiva do recém-nascido, de satisfazer por si próprio a ação específica, necessária para conter a tensão em função das necessidades vitais. Este fato impõe que a sobrevivência e o desenvolvimento do ser humano, estejam na dependência do Outro que encarne a função materna, desde onde é capturado pela intensa força da sensibilidade afetiva da puérpera.
Fazem parte dos processos evolutivos: a maturação, como um conjunto de transformações que sofrem os organismos ou algumas de suas células até alcançar a plenitude; e o crescimento, que está relacionado aos aumentos de volume e o peso. Porém para psicanálise, “O desenvolvimento é um conceito mais abrangente, já que remete às transformações globais que incluindo o crescimento, a maturação e os aspectos psicológicos, conduz a adaptações cada vez mais flexíveis” (CORIAT e JERUSALINSKY, 1987, p. 66) e estão sempre em relação com as funções motoras, verbais, perceptivas, cognitivas, e afetivas.
“Levin, (1997, p. 24) descreve o desenvolvimento em termos de:
[...] desenrolamento (desdobrar, estender ou desfazer o rolo), implica no desdobramento das diferentes funções motoras e fisiológicas. “Para desatar o que permanece enrolado no corpo, isto é, para desenvolver, é necessário que nasça um sujeito, o que supõe uma inscrição da letra no corpo”.
Inscrição que ocorre através do enlaçamento do corpo à estrutura discursiva, colocada em ação pela instância familiar; ela opera sobre o sujeito de uma forma ampla, sendo bem mais do que a história pessoal de cada membro da família; carrega as marcas da formação histórico-social da cultura a que pertence.
Através do olhar da mãe, o filho é posicionado como objeto de desejo, o que lhe garantirá a operação do corpo especular. Mas, o papel da mãe não é puramente imaginário, mas também simbólico. Para Lacan, a mãe é o lugar do “tesouro do significante” (LACAN, 1949), significantes este, sempre insuficientes para dar conta da totalidade do bebê, deixando sempre um espaço para novas significações. Arrastado pelo vazio do desamparo inicial, o desenvolvimento seguirá seu curso, através de uma rede significativa que o alienara à mãe, tornando-o sujeito através do enlaçamento das vias oral, escópica, olfativa e tônico muscular.
O humano se diferencia dos animais por habitar a linguagem. Na linguagem, lugar exterior ao seu corpo, campo do Outro, é desde onde poderá articular-se como sujeito e onde mundo ser para ele representado; é condição da existência do seu ser. “A subjetividade é um fato da linguagem como estrutura, e as funções orgânicas organizam-se pelo efeito de transformação. que a linguagem opera na biologia.” de acordo com Molina (2001, p. 15).
No estudo do desenvolvimento humano, consideram-se os Aspectos Estruturais do desenvolvimento, que se constituem de um aparelho biológico, primordialmente o sistema nervoso central, que oferece abertura aos processos simbólicos e virtuais; e um aparelho psíquico, lugar da constituição subjetiva (CORIAT, 1983, p.6-7) e da função intelectual. Os aspectos instrumentais estão relacionados com a psicomotricidade, aquisição da linguagem, hábitos de vida, socialização, relação com os objetos e brincadeiras. O bebê através dos movimentos do seu corpo, da alternância destes movimentos, quando rola, engatinha, põe , tira, esconde, aparece, sustentado pelo desejo outro....,vai cavando um lugar na família, apossando-se do seu corpo, pela transformação de corpo real em corpo imaginário, vai brincando .... aprendendo. Estes desdobramentos sustentarão aprendizagens mais complexas.
Jerusalinsky (1989 apud MOLINA, 2001) coloca que a organização dos grupos práticos dos deslocamentos da inteligência prática e a organização do pensamento serão conseqüências de tentativa de remontar o resto que a fenda da inscrição do desejo definitivamente abriu. Para a psicanálise o conhecimento se constitui no campo do desejo. Neste sentido, entrelaçam-se as dimensões do corpo, a do psíquico, dimensão do sujeito do desejo, e do conhecimento.
Para a psicanálise, os transtornos graves no desenvolvimento referem-se a uma falha na constituição subjetiva, decorrentes dos fantasmas parentais, de limitações físicas, dificuldades nos estabelecimentos de laços sociais, falhas na educação...
Kupfer (2000) aponta que trabalhar com Transtornos Graves no Desenvolvimento, nos coloca em uma imprecisão quanto à categoria nosográfica, e que há consenso de que, quando se fala de transtornos graves no desenvolvimento, estamos falando psicose e autismo infantil, citando autores como Melanie Klein, Francês Tustin Françoise Dolto, Maud Manoni e Françoise Dolto e Rosine e Robert Leford. É consenso também entre os psicanalistas, que estes quadros ainda se apresentam com definições imprecisas e etiologias desconhecidas.
Para estes transtornos, a psicanálise se utiliza dos diagnósticos de psicose e autismo. Já, No manual de diagnóstico e estatística dos distúrbios mentais (DSM-IV) da Associação de Psiquiatria (1944), as crianças anteriormente classificadas como psicóticas e autistas, agora são: “Portadores de distúrbios globais no desenvolvimento” fornecendo apenas uma descrição, não uma compreensão dos mesmos.
Por se tratar de um quadro de alta complexidade, a clinica dos transtornos no desenvolvimento, requer uma ação conjunta envolvendo várias áreas do conhecimento: a neurologia, fonoaudiologia, psicopedagogia, terapia ocupacional, a fisioterapia, a genética, a psicanálise.... para que se atenda a necessidade desses pacientes. Nenhuma delas isoladamente contém todos os operadores teóricos, para as questões da etiologia, diagnóstico, prognóstico e tratamento do quadro. A partir de experiências clinicas praticadas por psicanalistas, uma questão se colocava, a necessidade de um eixo comum ordenador desta prática interdisciplinar.
País (1983) afirma que, a pluralidade disciplinar não implica em uma diversidade de posições do terapeuta ou da equipe interdisciplinar, quanto à articulação conceitual acerca do objeto a ser estudado. Três modelos aparecem com maior freqüência neste campo. O modelo físico-natural, onde o objeto a ser estudado está congelado em uma rede de significações; é, por exemplo, a posição da Medicina. O segundo reconhece não ser possível tratar da saúde do homem a partir de uma só disciplina; o toma como um ser biopsicossocial, indivisível, porém sem esclarecer quais são as contingências que os une. Modelo que responderia a uma clinica multidisciplinar, onde o paciente seria um objeto passível de ser divido, em tantas partes quanto àquelas que ele necessitasse; o saber sobre o objeto consistir-se-ia na somatória destes saberes. O terceiro modelo é o da psicanálise, onde o homem como um ser biopsicosocial é um ser que fala e este fato inclui um quarta dimensão: é a dimensão de sujeito. Sujeito efeito da linguagem, onde o ritmo do desenvolvimento é marcado pelo desejo do Outro, que opera sobre o outro corpo do através da linguagem. Portanto a noção de sujeito é o eixo por onde circulam as outras disciplinas.
A interdisciplina, colocada por País,- propõe a integração, a constituição de um espaço discursivo onde várias disciplinas não se esgotem em seus próprio saberes, mas resultem em uma integração visando melhorar as relações entre elas e a produção de significações mais amplas.Qualifica esta clínica de:
“Transdiciplinar é justamente que todas as disciplinas se encontram atravessadas por uma concepção ética comum, que recoloca as éticas particulares de cada uma delas orientando-as como referência ao conceito de sujeito do desejo. Tal recolocação opera na relação paciente-terapeuta, regendo as intervenções na transferência. compartilhada por todas as disciplinas”. (PAÍS, 1983, p. 31).
Atualmente duas instituições conhecidas: A Pré-escola Terapêutica Lugar de Vida , em São Paulo desde 1991 e o Centro Lydia Coriat, desde 1978 desenvolvem uma prática interdisciplinar, apoiada na transdiciplinariedade.
O tratamento dos transtornos graves no desenvolvimento, realizada por uma equipe a interdisciplinariedade, busca o atendimento das necessidades dos pacientes com mais eficácia, com o objetivo de corrigir possíveis erros que tornam infrutíferos, quando realizados de forma compartimentada.
Vamos apresentar a seguir, um destaque para a clínica de bebês, pelo fato da grande importância que tem na prevenção dos transtornos graves do desenvolvimento.
No ano de 1997, teve início no Brasil estudos teóricos e práticos, dedicados a psicanálise com bebês, tomando como base trabalhos realizados na França há alguns anos e em Buenos Aires há trinta anos. Trabalhos estes realizados com base em Freud, Dolto, Winnicott, Lacan, entre outros. Estes estudos surgem, por parte de psicanalistas que desenvolviam trabalhos com crianças e adolescentes autistas, psicóticos, com transtornos graves no desenvolvimento e crianças com síndromes ou lesões orgânicas. No caso das síndromes e lesões orgânicas, percebiam-se alterações também psíquicas que em nada se relacionam com causas orgânicas. Observava-se que a partir da escuta dos pais, algo na história deles ou da criança poderia interferir na constituição psíquica, alterando o curso do desenvolvimento e produzindo um quadro de transtorno grave no desenvolvimento.
Daniela Teperman (2005) publicou um livro intitulado Clinica Psicanalítica com Bebês, uma intervenção a tempo. Este apresenta uma pesquisa extensa desta clínica, que busca modelos de psicanalistas que fizeram história da clínica com bebês; fala de formas de tratamento e seus efeitos, tais como intervenção precoce, estimulação na psicanálise com bebês e prevenção em saúde mental. Trabalha ainda, a noção de diagnóstico precoce e o que é necessário para sua realização. Neste trabalho alguns profissionais devem estar envolvidos: pediatras, visando instrumentá-los para observar a relação mãe bebê e não só seu desenvolvimento físico e motor, objetivando perceber desde os primeiros meses, o se existe alguns sinais ou certos indicadores de riscos para o desenvolvimento. Daniela resgata a frase célebre de Winnicott: “O papel essencial do pediatra seria prevenir doenças mentais se ao menos ele soubesse”. Diante disto é preciso intervir com os pediatras para criar uma demanda para a clínica psicanalítica com bebês.
“O que determina a estruturação subjetiva não é o orgânico, mas, o lugar simbólico que lhe é outorgado. Um bebê que nasce com uma patologia orgânica está submetido às mesmas leis fundamentais para sua constituição subjetiva que os outros seres humanos”. (CORIAT, apud TEPERMAN pág.87).
A clínica com bebês propõe escutar os pais, acolhê-los diante no momento em que estão passam por um problema; seja o nascimento de um bebê com síndrome, com crises convulsivas, com agitação motora ou um distúrbio alimentar sem causa específica. A direção do trabalho nesta clínica é situá-los frente à representação fantasmática que construíram, a partir do nascimento do filho. Busca-se deslocá-los deste lugar, que por vezes está sendo o único lugar possível para o filho, resgatando um lugar simbólico a partir da história familiar. Os pais reorganizam seu olhar observando as intervenções do profissional. Percebem como o bebê responde às convocações, reage ao que lhe é dito e procura reações diferentes; isto faz com que os pais não fiquem presos, nas possíveis seqüelas que o filho possa ter.
O profissional desloca para os pais que, permanecem juntos nas sessões, o seu encantamento e aposta quando antecipa as ações do bebê. Isto não estava sendo possível para os pais, que neste momento, estavam presos ao diagnóstico ou a questões familiares.
No início, o profissional empresta para os pais este reconhecimento e suposições, a partir dos significantes familiares, coletados nas entrevistas, e o faz a partir do brincar. À medida que o bebê responde os pais, estes inconscientemente passam a sustentar esse investimento, filiando o bebê ao seu desejo, tornando possível prevenir seqüelas de algumas lesões orgânicas e ou transtornos globais do desenvolvimento.
O Espaço Escuta é um Centro Interdisciplinar de Diagnóstico e tratamento precoce dos Distúrbios globais do desenvolvimento, fundado em 21/08/2001. Ali são atendidas crianças de 0 a 12 anos, pais e avós, gestantes com gravidez de risco psíquico em atendimentos individuais e em grupos. Além de oferecer cursos de formação, com estágios para profissionais na área da saúde, educação e área social, orientação e supervisão para profissionais e instituições das áreas citadas.
Atualmente com uma equipe formada por oito psicólogos, um neuropediatra, dois pediatras, duas fonoaudiólogas, uma terapeuta ocupacional, três psicopedagogas, duas fisioterapeutas, uma assistente social e quarenta estagiárias de psicologia e uma de fisioterapia.
No trabalho do Espaço Escuta, alguns fatores que contribuem para um melhor resultado do trabalho, são eles: o espacial, todos os profissionais ocupam o mesmo espaço físico, interesse e preocupações; o temporal , é possível uma reunião em um determinado momento para resolver problemas emergente, com profissionais de várias áreas e econômicos , no sentido do aproveitamento da mesma infra-estrutura para obter resultados mais abrangentes.
A realização deste trabalho não é certamente uma tarefa fácil, pois implica esforço e envolvimento pessoal para gerir a complexidade das situações que surgem. Porém, com certeza, constitui um desafio participar ativamente na resolução de problemas, que atinge um número grande de crianças, em um momento em que as condições simbólicas, ofertadas pela cultura colocam grandes entraves, na organização psíquica do sujeito contemporâneo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CORIAT, L e JERUSALINSKY, N. Desenvolvimento e Maturação. Escritos da criança, número 1, Porto Alegre, ed. Centro Lydia Coriat, 1987.
CORIAT, L. JERUSALINSKY, A. Aspectos estruturais e instrumentais do desenvolvimento. Escritos da Criança, número 4, Porto Alegre, Ed. Centro Lydia Coriat, 2001
FREUD S. Projeto para uma psicologia científica, In; Obras completas, volume I, Rio de Janeiro, Editora Imago, 1987
JERUSALINSKY, A Psicanálise e desenvolvimento infantil: um enfoque transdisciplinar. 2º. ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999.
KUPFER, M.C.M. Educação para o futuro: psicanálise e educação. São Paulo, Escuta, 2000.
LACAN, J. O Estado do Espelho e sua função na formação do Eu. In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. 1945
LEVIN, E. Estrutura e desenvolvimento psicomotor. In: A infância em cena Editora Vozes, 2001.
MOLINA, E.M. A organização das construções cognitivas a partir da constituição subjetiva. In: Escritos da Criança, número 4, Porto Alegre: Centro Lydia Coriat, 2001.
CORIAT, E. Psicanálise e clinica de bebês. ed. Artes e Ofícios. Porto Alegre, 1997.
TEPERMAN. D. W. Clínica Psicanalítica com Bebês: uma intervenção a tempo, Editora Casa do psicólogo. São Paulo, Fapesp, 2005.
PAIS, A. Interdisciplina e Transdisciplina na Clínica dos Transtornos do Desenvolvimento Infantil, Escritos da criança, número 1, Porto Alegre, ed. Centro Lydia Coriat, 1987