Reportagem Local - Folha de Londrina - 07 de abril de 2008

 

"Intervenção precoce evita doença mental"
Espaço Escuta, em Londrina, presta atendimento multidisciplinar com profissionais formados em psicanálise.

Fotos Evandro Monteiro

O aniversário de dois anos de Manoah foi comemorado no Espaço Escuta, onde ele começou a ser atendido aos 45 dias de idade: exames mostram que não há mais lesão cerebral.
 

Uma parada respiratória e outra cardíaca, durante o nascimento prematuro, quase causaram a morte do pequeno Manoah. Foram 28 dias lutando pela sobrevivência internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Mas, além disso, ainda havia a possibilidade de que o menino apresentasse seqüelas como não andar e não falar, conseqüências da grave lesão cerebral causada pela falta de oxigenação durante o parto.

Hoje, dois anos depois, ele é uma criança normal, que corre, fala e brinca como qualquer outra. E o melhor: exames mostram que não há mais lesão cerebral. O que pode parecer milagre, é, na verdade, resultado de intervenção precoce - trabalho feito em Londrina pelo Espaço Escuta, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip).

O objetivo do centro interdisciplinar, fundado em 2001 e credenciado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado, é fazer a identificação precoce dos indicadores de risco para o desenvolvimento infantil, e prevenir a instalação e o agravamento dos distúrbios globais do desenvolvimento. Casos como o de Manoah, que mostram como a intervenção precoce pode fazer a diferença. ''Existem amplas evidências, através de pesquisa qualitativa, que a detecção precoce produz uma mudança significativa no desfecho clínico da criança'', ressalta a psicanalista Vera Lúcia Dolenz, uma das profissionais do Espaço Escuta.

''A gente sabe que o cérebro na criança ainda está em desenvolvimento, e que nesse crescimento alguns neurônios vão morrer. A idéia é então investir naqueles que iriam morrer para que migrem para outras áreas do cérebro que foram lesionadas, por exemplo'', explica Maribel Salles de Melo, também psicanalista, e fundadora e presidente do Espaço Escuta.

Isso tudo é feito com o trabalho de psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia e terapia ocupacional, através de brincadeiras, nos primeiros meses de vida da criança. O grande diferencial de outros centros que também fazem atendimento multidisciplinar é que todos os profissionais, independente da área, passam pela formação em psicanálise.

O objetivo, com isso, é que o trabalho seja sempre feito pensando no sujeito como um todo e não apenas em tratar as partes isoladas. ''Isso é um grande diferencial porque todos os profissionais aqui tem conhecimento em desenvolvimento psíquico, e as atividades são propostas dentro disso'', ressalta Vera. ''Na fisioterapia, se o profissional só se preocupa, por exemplo, no alongamento porque há encurtamento do tendão, isso é trabalhar a função isolada. Mas, o que coloca a criança em movimento é o desejo, ela é movida por outra questões'', completa Maribel.

Assim, ressaltam as profissionais, o especialista também não é mero estimulador, ''mas aparece como um terceiro na relação mãe e filho''. ''Não como um substituto dela, mas como alguém que encontra-se sobredeterminado a desejar que a criança se desenvolva'', afirma Vera. Cada criança tem o que chamam de profissional de referência, aquele que faz o acompanhamento inclusive na escola, em casa, e no neurologista, e que solicita outras consultas quando necessário.

Depois do credenciamento pelo SUS, o Espaço Escuta ampliou o atendimento de 40 para 100 crianças, mas há uma fila de espera de 300. As crianças são encaminhadas de postos de saúde, médicos e escolas. O Espaço também é um local para a formação de profissionais, onde são oferecidos cursos de pós-graduação em Psicanálise e Transdisciplina, com 360 horas, e parte teórica e estágio.

Chiara Papali - Jornalista da Folha de Londrina
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Obs.: Manoah ficou internado na UTI Neonatal do Hospital Infantil Sagrada Família da Irmandade Santa Casa de Londrina, sendo Médicas responsáveis,  Dra. Janete Maria Figueira Teixeira, Dra. Fabiane Freitas Peres e a Equipe de Enfermagem.

"Hoje ele é tão arteiro que a gente comemora todos dias"

O aniversário de dois anos de Manoah foi especialmente comemorado pelos pais, Milu Leão Duarte, de 28 anos, e Marcelo Nunes Nogueira, de 41 anos. E, o local da comemoração, segundo eles, não poderia ser outro: o Espaço Escuta. Foi lá que Manoah começou a ser atendido, aos 45 dias de idade, com a perspectiva de sofrer conseqüência graves das paradas cardíaca e respiratória. ''Cinco dias antes dele ter alta, uma tomografia mostrou uma lesão cerebral gravíssima e que havia poucas chances de ele andar e falar. Mas eu questionei se havia alguma chance, mesmo que mínima, porque era nessa que eu iria me agarrar'', lembra a mãe.

''Assisti ao parto e lá já vi que alguma coisa errada estava acontecendo. Foi um choque quando os médicos falaram que o quadro dele era gravíssimo. Foi desesperador. Todo mundo falava para eu rezar e eu não conseguia nem chorar'', lembra o pai.

Atendido desde então duas vezes por semana, com intervenção precoce, os resultados são evidentes. ''Com sete meses ele já não apresentava mais lesões. Os resultados dos exames sugeriram que houve migração neuronal'', aponta a psicanalista Maribel Salles de Melo.

Por isso, hoje, para os pais, o presente é o próprio filho. ''A gente pediu tanto e hoje ele é tão 'arteiro', que a gente tem que agüentar e comemorar todos os dias'', brinca o pai. (C.P.)
 

Relação com a mãe é a base para saúde mental



Detecção precoce produz mudança significativa no desfecho clínico da criança, destaca psicanalista.
 

As relações corporais, afetivas e simbólicas ''que se estabelecem entre o bebê e sua mãe, ou substituto, nos primeiros anos de vida'' são as bases da saúde mental. ''Essas relações promovem a inserção do ser humano na cultura e constroem sua subjetividade, eixo organizador do desenvolvimento em todas as suas vertentes'', ressalta a psicanalista Vera Dolenz, do Espaço Escuta.

Mas, nem sempre a infância é valorizada como uma fase importante para o desenvolvimento mental, que começa com a mulher e o desejo de ser mãe, e segue com um ambiente favorável para isso. ''É importante que a criança encontre um lugar no desejo da mãe, que a possibilite inconscientemente a fazer investimentos afetivos. Ela tem que estar disponível para essa relação'', diz Vera.

E, se a idéia é quanto mais cedo melhor, detectar os indicadores de risco para a doença mental também passa por avaliar e tratar os pais. Essa também é uma parte importante para evitar o agravamento do problema na criança, seja mental ou físico, pois os pais sofrem com a ''morte'' da criança idealizada, e precisam ''resgatar'' aquele filho que tem um problema.

Quando se acolhe os pais, dizem as psicanalistas, eles conseguem elaborar melhor o que está acontecendo e passam a lidar melhor com o filho. Os atendimentos podem ser individuais ou com grupos de pais e avós. (C.P.)
 

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